TRABALHO DE BASE E MOBILIZAÇÃO NAS RUAS CONTRA A POLÍTICA ANTI-POVO: não deixar a indignação ser capturada pelos gabinetes e organizar a resistência para uma luta prolongada.

O pacto de classes no Brasil acabou, apesar das ilusões que persistem entre certos partidos e setores da esquerda. Este pacto sustentou a convivência institucional de agentes políticos oriundos de diferentes setores ideológicos que encontraram espaços comuns para disputar o campo da política tradicional no jogo eleitoral. Embora tenha garantido alguns direitos sustentado pela Constituição Federal, este pacto nunca serviu para todo mundo – o que se prova pela criminalização da pobreza nas periferias, pelo genocídio do povo negro e a guerra contra os povos indígenas. Nunca se tocou nas estruturas de classe e poder neste país.

Com a necessidade das elites de mais ajuste fiscal para manter e aumentar lucros em um cenário mundial de crise e ascensão das direitas, a esquerda institucionalizada e domesticada no poder foi descartada. O golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016 é parte do avanço dos golpes nos insuficientes direitos conquistados na base de muito sangue e suor. Porém, pelo lado do povo, a ruína do pacto de classes já poderia ser antevista com as fissuras crescentes da crise de representatividade e da desconfiança generalizada nas instituições do Estado e seus agentes tradicionais. A realidade de ajustes, aumento no custo de vida e matança do povo pobre e negro não era o que o reformismo havia prometido. E a esquerda de modo geral não foi capaz de criar um novo horizonte para os anseios populares que  produzisse lutas e conquistas independentes do governo de turno.

O consenso dos poderosos contra o povo.

Sem propor nada pra além do “mais do mesmo”, a esquerda institucional perdeu a queda de braço e quem canalizou a indignação antissistema foi a direita. Certamente com manipulação da fé, mobilização do ressentimento como afeto político e alta dose de antipetismo genérico. As velhas promessas neoliberais voltaram junto com o conservadorismo através de um conluio entre vários setores, incluindo militares, líderes neopentecostais, setores da mídia, empresários, banqueiros e parte da velha oligarquia política. Contudo, ainda que seja um divisor de águas, a eleição de Bolsonaro não é o começo e nem vai ser o fim de um processo mais longo de nossa história.

Em um governo marcado por discursos caricatos, casos de corrupção, proximidade com as milícias e trapalhadas diversas, Bolsonaro segue enredado na velha política, justamente por ser um dos seus representantes, bem como por seguir alinhado aos interesses dos poderosos. Se produzem seguidos atritos com a imprensa, o congresso e o Judiciário, além de divisões entre forças e grupos que sustentaram sua candidatura. E isso não deve parar. Não existe um projeto unificado entre as elites e um trajeto precisamente definido para os rumos da política. Contudo, há um centro de gravidade em torno das pautas anti-povo com a liquidação dos bens e serviços públicos, a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais.

No âmbito da Educação, os cortes que foram previstos estavam a serviço de estimular ainda mais a entrada de capital e modos de gestão privados, em todos os níveis. No entanto, as manifestações em 15 de Maio em defesa da educação foram massivas. Porém, ainda que tenha marcado a luta popular de rua contra o governo, é preciso dizer que estiveram fora dessa luta setores populares que sequer vislumbram a possibilidade de uma vida mais digna através da educação.

A Reforma da Previdência com seu ataque às aposentadorias e pensões é o grande consenso entre os poderosos. Uma reforma pensada e defendida pelo sistema financeiro que corta fundo na carne do povo a médio e longo prazos. A Greve Geral de 14 de Junho foi um forte dia de mobilizações, com piquetes, trancaços de vias e marchas país afora. É preciso admitir que apesar da articulação entre vários grupos e entidades da classe contra a reforma, faltou força em setores estratégicos para a construção de um dia de paralisação contundente. A fragilidade do movimento sindical e popular verificada nos coloca diante de um problema histórico, produto de décadas de burocracia distante das bases, de peleguismo parceiro da patronal e da incapacidade de renovação dos repertórios e modos de vinculação com setores precarizados da classe trabalhadora brasileira. Apesar disso, o dia 14 faz parte da ativação das mobilizações sociais nas ruas , essenciais para começarmos a construir alternativas combativas diante das políticas anti-povo.

A Vaza-Jato escancara o funcionamento do Estado.

A Vaza Jato tem dominado parte do debate político nacional desde a semana que precedeu a greve geral. A denúncia atirada em público no dia 9 de junho pelo site The Intercept Brasil pode ter mudado o curso da conjuntura brasileira. Os arquivos vazados por fonte anônima de conversas privadas de agentes da Lava Jato caracterizam conchavo judicial e o uso das técnicas do Direito para lutas de poder contra desafetos políticos.

As relações entre os promotores da operação e o então juiz Sérgio Moro tiveram diferentes impactos sobre a sociedade: a base bolsonarista não viu problemas e ainda aumentou o coro em defesa Moro, como um herói que teria feito de tudo para “combater a corrupção”. Setores liberais, especialmente da imprensa, tradicionalmente ligados à direita, fizeram críticas duras com base na suposta importância das instituições do Estado. Setores da esquerda, para além do próprio petismo, denunciaram o “escândalo” – em parte na defesa das instituições e de um ilusório Estado de Direito, em parte para tomar ou retomar a bandeira de “Lula Livre” como pauta.

Para nós, não há dúvidas que apesar do lawfare, este é o funcionamento real do Estado, e sempre foi assim para o povo negro e pobre e para a militância organizada e combativa em determinados contextos. O que mudou foi subir o degrau na direção de uma força política descartada pelo fim do pacto de classes. Vale lembrar que o agente central neste caso é o atual ministro da justiça que tenta emplacar seu pacote de mais Estado policial, racismo e criminalização da pobreza. Não há regras que garantam o tal Estado Democrático de Direito, porque o Estado é este conjunto de regras feitas para serem dobradas em prol de elites sempre que necessário. A estrutura criminal-persecutória que articula polícias, promotores e juízes não escandaliza o grosso da população, pois domina o imaginário de nossa sociedade, marcada pelo escravismo colonial e pela exceção que é aplicada para grande parcela do povo, e que vem se reforçando com cada vez mais ajuste e repressão.

Mais trabalho de base e mais mobilização nas ruas para organizar a luta contra os ataques.

A direita avança quando radicaliza, enquanto as ideias de esquerda caem na vala comum do antipetismo, porque parte da esquerda segue recuando tanto nos projetos, quanto nas formas de ação. Quanto mais domesticada a esquerda, mais cresce a direita. Os chamados “mutirões” das eleições 2018 não se transformaram em modelos de repertório de trabalho de base. Nem a indignação diante dos ataques se tornou organização de rua para enfrentar publicamente o projeto das elites. Logo após o dia 14 de Junho, o que temos visto é a continuidade de velhas táticas: uso de atos públicos como palanque para políticos profissionais em cima de verdadeiros trios elétricos, manobras de burocracias sindicais para manutenção de espaços de poder e decisão, canalização da luta para conchavos em gabinetes parlamentares e atos pífios em aeroportos diante de parlamentares em viagem.

A pauta em defesa do ex-presidente Lula não é uma pauta por justiça, mas sim uma palavra de ordem e uma tentativa de retomada de um pacto entre classes e instituições que já não é sequer possível. As centrais recuaram na tática da greve geral chamando apenas um dia de mobilização nacional para 12 de Julho. É nítido que a pauta ‘Lula Livre’ pós Vaza-Jato influenciou ainda mais neste recuo em relação à luta nas ruas (principalmente da CUT) e vem substituindo a da Greve Geral em grande parte da esquerda institucional.

Desde uma perspectiva libertária, defendemos que é nas ruas que a luta popular constrói resistência e não nas negociações com deputados ou na aposta de que um ‘grande líder’ quando liberto salvará a ‘Pátria’. A perspectiva que se apresenta é de uma luta prolongada de resistência. São muitos os ataques aos direitos e ao patrimônio público dos brasileiros. E o ajuste que Paulo Guedes executa já tem seus efeitos: o alto desemprego e a inflação eleva o custo de vida e este corrói ainda mais a renda dos mais pobres. Tudo está muito caro: comida, transporte, remédios. A carestia de vida é uma pauta muito sensível para a população e merece melhor atenção e desenvolvimento em nossa propaganda. Enquanto isso banqueiros e grandes empresários não param de enriquecer com a ‘crise’. Crise para quem? Para os de baixo, claro.

É por isso que a nossa luta para ser sólida depende muito da mobilização e trabalho de base no cotidiano dos lugares onde estamos inseridos: em nosso local de estudo, trabalho e moradia. Somente construindo e fortalecendo ferramentas coletivas de luta é que resistiremos e teremos condições de disputar o imaginário e o sentido dos acontecimentos, apontando nossos reais inimigos do andar de cima. Construir e mobilizar pelas bases, nos territórios, nas entidades e movimentos sociais que fazemos parte. Sem terceirizar a luta para ninguém. Sem ficar numa posição de espectador esperando novos ‘escândalos’ no governo ou ‘benesses’ na negociação com políticos por uma reforma “menos pior”. O que muda a realidade é atuar nela com luta e organização. Seguir no trabalho de base e fortalecer a luta nas ruas é a tarefa que temos.

NOSSOS DIREITOS NÃO SE NEGOCIAM!

ABAIXO O PACOTE RACISTA E GENOCIDA DE SÉRGIO MORO!

A LUTA SE DECIDE PELA BASE E NAS RUAS E NÃO NOS GABINETES OU EM CIMA DO CARRO DE SOM!

DEFENDER NAS RUAS NOSSA APOSENTADORIA, A EDUCAÇÃO PÚBLICA E CONDIÇÕES DIGNAS DE VIDA!

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CONSTRUIR A GREVE GERAL PELAS BASES! DIA 14 DE JUNHO É O POVO FORTE CONTRA A REFORMA DA PREVIDÊNCIA! LUTAR E DEFENDER A NOSSA APOSENTADORIA E DIGNIDADE DE VIDA NAS RUAS!

Toda a força na construção da Greve Geral!
Desde o início de seu governo sabemos que a principal missão de Jair Bolsonaro é a aprovação de uma duríssima reforma da previdência para completar o pacote de ataques à classe trabalhadora e deixar o caminho dos banqueiros livre para manter seus lucros através da máxima exploração. 
 
Em 5 meses, Jair Bolsonaro cercado de polêmicas e ataques aos direitos sociais, avança com seu plano de destruição e leva o país para uma recessão econômica e colapso social. A Reforma da Previdência é capitaneada pelo Chicago Boy Paulo Guedes, que aplicou o mesmo plano no Chile, levando aposentados a se suicidarem por não terem mais dinheiro para sobreviver após a aposentadoria. Hoje o povo chileno vai às ruas lutar para reverter essa política. Agora Guedes quer matar o povo brasileiro, pois o capitalismo não precisa do excedente de pobres. Com as novas regras ninguém vai conseguir se aposentar, seja por tempo de contribuição ou pela idade mínima. É uma reforma da previdência perversa e cruel, pois quando o trabalhador precisar do SUS, auxílio doença, e outros direitos sociais, não vai ter com este novo modelo. Ou seja, o governo Bolsonaro não tem somente um projeto de destruição, como ele mesmo disse, mas projeto de morte. 
 
É a mesma politica que está por trás dos cortes na educação e neste projeto de reforma da previdência. Uma política de capitalização de direitos sociais como a educação pública e a aposentadoria. É pegar o dinheiro público da educação e da previdência e colocar na mão de investidores e banqueiros, para aplicarem no mercado financeiro e ficarem mais ricos. Ampliar o lucro de instituições financeiras que vão gerir essa previdência privada. Reduzir o valor que as empresas pagam para financiar a aposentadoria dos trabalhadores. Com os cortes na educação, querem estimular a maior entrada do capital privado nas universidades públicas e nas pesquisas, gerando mais exclusão e elitização na educação. Além disso tudo, com estas políticas ultraliberais o governo quer liberar mais recursos e garantir o pagamento da dívida pública, que é o grande assalto ao país que todos os governos são cúmplices. Bolsonaro quer arrancar um trilhão de reais dos pobres e da classe trabalhadora para pagar a crise gerada pelo capitalismo. Mas os juros da dívida pública devora 40,66% do orçamento federal (mais de 1 trilhão de reais). Bolsonaro é o lobo querendo se disfarçar de cordeiro, é a mesma política de sempre que não tem nada de novo e tira o sangue do povo para os capitalistas, agiotas, investidores e banqueiros ficarem cada vez mais ricos.   
 
   Além da destruição da aposentadoria das classes populares, Bolsonaro, Mourão e companhia impulsionam uma cultura de violência contra a comunidade LGBT, a população negra e periférica, mulheres, indígenas, quilombolas e qualquer voz que se levante contra seu projeto de extrema-direita, onde se inclui o pacote anti-crime de Moro que nada mais é do que mais criminalização, cadeia e morte para a população negra e pobre. A cada dia avança a destruição do meio-ambiente para o aumento dos lucros do agronegócio com a exploração e esgotamento dos recursos naturais e morte dos povos originários. O desemprego atinge números alarmantes, promovendo mais sofrimento às famílias.  A educação e a pesquisa estão sendo sucateadas por cortes de verbas que trarão um caos ainda maior à educação pública e ao futuro do país. 
 
BASTA! MOBILIZAÇÃO TOTAL NA CONSTRUÇÃO DA GREVE GERAL! 
 
Após milhares de pessoas terem ido às ruas no mês de maio em defesa da educação e contra a reforma da previdência, é hora de barrarmos todos esses ataques às nossas condições de vida! A aprovação da reforma da previdência representa o fortalecimento desse governo para os ricos e o avanço da  retirada de direitos da população. É preciso radicalizar a luta e organizar a Greve Geral do dia 14 de junho em cada local de trabalho, de estudo e moradia. Nesses dias que antecedem é necessário tomarmos os terminais de ônibus, estações de trem, escolas e universidades, nossos bairros, os locais de trabalho etc, com panfletagens, reuniões, assembleias e agitação, chamando a nossa classe à mobilização! Luta e organização pela base criando em cada zona, município ou região, territórios de resistência e solidariedade!
 
Por outro lado o reformismo cumpre seu papel histórico de esfriar e canalizar a indignação popular pela via parlamentar. Chega de peleguismo, a conciliação de classes com o capital nunca foi e não será a saída para esta conjuntura. Pois o grande legado da esquerda reformista foi a  desmobilização dos movimentos populares e a pavimentação de um caminho para o ultraliberalismo de Bolsonaro vir destruindo os direitos sociais e atacar o povo pobre, negro, LGBTs, indígenas, mulheres, quilombolas, sem-terras e pequenos agricultores. É preciso construir poder popular nas escolas, bairros, comunidades, no trabalho, com participação do povo nos rumos dos processos de organização das lutas. Chega de pautas partidárias atropelando a organização social, visando somente as eleições e a garantia de deputadas nas bancadas parlamentares.
 
A luta é árdua, não começou agora e nem terminará no dia 14 de junho. É preciso se organizar e trazer o povo para debater e participar no dia a dia. Encontrar soluções e alternativas ao capitalismo com independência e autonomia política em relação aos governos e aos partidos eleitoreiros. Construir ferramentas de mobilização social, política e econômica populares e dotadas de poder popular. Vamos parar o país para barrar de vez os interesses do mercado, do imperialismo norte americano e dos inimigos do povo!
 
A Greve Geral é um instrumento histórico de luta das e dos trabalhadores, é uma ferramenta de força coletiva extremamente necessária para fazer frente aos ataques de governos e patrões. É com ação direta organizada – greve, marcha, trancaço, piquete e ocupação – que o conjunto da classe oprimida responde aos desmandos dos de cima!
 
                                   
SEM NEGOCIAÇÃO DE NOSSOS DIREITOS!
 
ABAIXO O PACOTE DE MORO DE CRIMINALIZAÇÃO, CADEIA E MORTE PARA O POVO NEGRO!
 
A LUTA SE DECIDE NAS RUAS E NÃO EM CIMA DO CARRO DE SOM! 
 
PARAR O BRASIL E BARRAR TOTALMENTE A REFORMA DA PREVIDÊNCIA! 
        
TODA FORÇA NA GREVE GERAL DO DIA 14 DE JUNHO!!
        
DEFENDER NAS RUAS A NOSSA APOSENTADORIA, EDUCAÇÃO PÚBLICA E DIGNIDADE DE VIDA!
        
DESDE A BASE, COM LUTA POPULAR E SOLIDARIEDADE DE CLASSE!
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[fAu] Zelmar Dutra: uma vida de combate pelo socialismo e pela liberdade.

Texto da Federação Anarquista Uruguaia (fAu). Original em: http://federacionanarquistauruguaya.uy/zelmar-dutra-una-vida-de-combate-por-el-socialismo-y-la-libertad/

Zelmar está para sempre entre nós. Não se foi, está aqui. Enquanto houver
luta por uma sociedade distinta, socialista libertária, estará entre
nós. Não é uma frase formal, sua trajetória nos acompanhará dizendo
muito e é por isso que nós o sentiremos aqui.

Relembrando-o trataremos de fazer uma breve perfil militante deste
querido e abnegado companheiro. As atividades que participou, que não
foram outras das distintas tarefas que são necessárias a uma organização
específica.

“Um companheiro foi preso, o levaram para a delegacia da outra quadra,
vamos tirá-lo”. Era uma proposta feita na rua, no contexto de uma
mobilização de rua, em enfrentamento a repressão policial. O preso era
nesta oportunidade Zelmar que havia resistido com todas suas forças a
questão repressiva. Dezenas de companheiros se agruparam na frente
da delegacia e exigiam que o soltassem. Zelmar era assíduo naquelas
mobilizações que se realizavam, várias por semana, vinculadas a
reivindicações operárias e estudantis da década de 60. Não pedia um
posto de luta, o tomava.

Sua infância foi sofrida, de origem humilde. Soube desde criança como
sentem e vivem os de baixo. Teve um longo trânsito pelo infame caminho
da pobreza, da falta de tudo aquilo que permite uma vida simplesmente
regular neste mundo de opressão, de muitos privilégios para poucos e
muita miséria para os demais. Mas isto não lhe marginalizou ou o fez um
ressentido, pelo contrário, lhe permitiu ir ao encontro da esperança de
um mundo melhor. Mas a experiência crua lhe havia ensinado que esse
mundo povoado de justiça autêntica e solidariedade só se podia alcançar
com muita resistência e luta e que a tarefa começava já.

Nasce e transcorre parte de sua vida em Rivera. Sendo criança passa não
ter lugar de família direta, sofre tombos, vai de um lugar a outro. Aos
sete anos fica internado no Conselho da Criança”. Ainda nestas condições
tem um propósito entre acordar e dormir: ir ao colégio. No Conselho da
Criança reconhecem sua habilidade manual e valorizam seu desejo de
estudar. Transferem-no para que isto fosse possível. Finamente inicia o
colégio em Pando, para chegar a ele tinha que realizar uma longa caminhada
todos os dias, persevera e segue até terminar. Nesse colégio que conhece
Roger Julien. Juntos, anos depois, ingressam na Escola de Belas Artes.
Ali toma contato com as ideias libertárias e participa de atividades
sociais da Associação de Estudantes, especialmente nas lutas de rua
durante um período. Em princípios da década de 60 se identifica com a
FAU, com suas propostas de ação para o meio social do momento e com sua
estratégia geral. Conhece um pouco do monstro por dentro das propostas
líricas, mas não o atraem, quer uma trincheira para lutar contra a besta
mas com métodos adequados.

A universidade estava sitiada pelas forças repressivas, rodeada pelos
milicos. Pretendem entrar para despejar a cacetadas quem se encontra
nesse momento refugiado ali, depois de um conflito onde a repressão não
foi bem sucedida. Foi um longo enfrentamento operário-estudantil no 18
de julho e nos arredores da Universidade. Foram se somando forças às
bestas do poder e terminaram cercando as ruas do perímetro de toda uma
zona, onde a universidade virou um refúgio. Depois disto um grupo grande
de companheiros trancou a porta e ficaram ali reforçando-a para impedir
a entrada da repressão. Os milicos jogavam gases e arremetiam várias
vezes sem sucesso, a resistência era firme e não puderam quebrá-la. Ali,
entre os companheiros de porta estava Zelmar todo o tempo, firme, sereno
e disposto.

Não fugia de nenhuma tarefa. Sabia que todas eram necessárias neste
combate de classes que circula por todas as artérias do sistema. O
espetaculoso não o seduzia, o que o conquistava era qualquer tarefa das
necessárias para sustentar no cotidiano essa esperança de futuro, esse
futuro que sentia que havia de estar construindo todos os dias em
diferentes terrenos sociais.

“Como andam os preparativos?”, lhe perguntavam os companheiros do Cerro
a Zelmar num amplo salão da rua Galícia que se estava transformando num
salão para atos. Havia se formado grupos de trabalho que faziam horários
todos os dias; do grupo da Belas Artes vinha Zelmar e Hugo Garrone. E
ali em poucos meses esteve nessa tarefa que foi dura, já que esse galpão
estava em condições que iam de regular para ruim. Era a infraestrutura para o
projeto de criação do Centro de Ação Popular. Um projeto de atividade
social amplo que abarcava distintos matizes combativos. Algo semelhante
com o que seria a ROE alguns anos depois.

Zelmar era de falar pouco, mas seguia com interesse e intervinha em
discussões sociais e políticas. Um silêncio vivo e expectante o
acompanhou por toda sua vida. Modesto como os de verdade, não fazia
coisas por ego mas por convicção de que eram questões necessárias e
obrigatórias de encarar.

Teve um passagem pelo grupo Violência FAI antes de entrar na
atividade da OPR 33. Chamamos-lhe FAI em memória dos companheiros da
Revolução Espanhola. O termo violência é porque se assumia a concepção
malatestiana de que opomos a violência que oprime a violência que
liberta. Conceitualmente se marcava além disso que estamos diante um
sistema onde o conjunto de relações de dominação estão assentadas na
violência, independente de como se expressem numa ou outra conjuntura ou
discurso. Violência FAI, se tratava então, de grupos operativos de apoio
a conflitos sindicais e em geral a movimentos sociais de massa. Uma ação
operativa ágil e bem próxima a luta de massas. Por exemplo, as ondas
sindicais eram frequentes em alguns casos, ondas que nos grandes
sindicatos não era fácil de sustentar. Zelmar junto a outros
companheiros participou numa expropriação de carnes e um conjunto de
artigos comestíveis que foram fundamentais para prolongar essa onda pelo
tempo que fora necessário.

“Tudo saiu bem”, disse Zelmar enquanto pôe sobre a mesa um pacote
grande. O pacote continha o pagamento da fábrica Acodike. Bem cedo pela
manhã, uma equipe da OPR foi até a casa do Gerente, o “levantou” e o
trouxe de um automóvel para a empresa. Com o gerente no volante, o
vigilante lhe abriu a porta e o que veio depois foi simples. Zelmar
fazia guarda a poucas quadras, ali parou o carro onde ia a equipe e lhe
entregou o pacote. Os companheiro se foram “limpos” e logo se
dispersaram. Zelmar chegou com um sorriso, um pedacinho de revolução
alcançado. Não era muito mas podia ir se acumulando.
Na metade de 72, se dá uma resolução para evacuar parte da Organização
para Buenos Aires. Estima-se que a ditadura estava chegando e que havia
de se acomodar a organização para “durar fazendo ” como sinteticamente
se dizia. Se evacuava fundamentalmente os grupos da OPR, metade da Junta
Federal e alguns companheiros vinculados a tarefas internas gerais.
Ficava o grosso dos companheiros que trabalhavam no meio sindical e
popular. Se havia proposto que Buenos Aires era um bom lugar para fazer
as finanças, tanto para as que logo se necessitariam como para as que
eram imprescindíveis frente a etapa que vinha. Restava pouco dinheiro do
que sobrou da detenção de Fernández Lladó. Finalmente em 1974 se
concretiza a retenção/“sequestro” de um “peixe gordo” pelo que se cobrou
10 milhões de dólares, em poder aquisitivo, uns 90 milhões de dólares de
hoje. A ditadura já estava instalada e para levar adiante projetos da
organização que andavam em curso se precisava urgentemente de meios
econômicos. O trabalho total deste operativo foi longamente complexo. A
retenção de Hert durou cerca de seis meses. Implicou um conjunto de
tarefa distintas. Numa delas esteve Zelmar. Num das mais difíceis. Foi
parte deste operativo junto a companheira de toda a sua vida: Amelie
Leivas. Juntos estiveram e militaram toda uma vida na organização.

Conseguiu escapar da Argentina naquela marco feroz de torturas,
desaparecimentos e assassinatos de companheiros que levou a adiante a
OCOA. Já no exílio realizou distintas atividades sociais, muitas
vinculadas as lutas de denúncia contra a ditadura. Regressou ao Uruguai
pouco depois da reorganização da FAU. De imediato recomeçou sua
militância orgânica. Distintas comissões de trabalho interno contaram
com sua presença e energia. No momento de sua morte integrava além de um
agrupamento da FAU, uma atividade social: o Ateneu do Cerro.

Foi nosso querido Zelmar, um companheiro profundamente fiel a sua
convicção e um exemplo militante. Amava a esperança de uma
sociedade justa, livre e solidária. Odiava profundamente este sistema
vergonhoso, genocida, que semeia injustiça, fome, xenofobia, exclusões e
que está organizado só para um punhado de ricos e poderosos. Esse
sistema de que nada podem esperar os e as de baixo. De que não há que
usar nenhuma das ferramentas que ardilosamente oferecem como real
possibilidade de mudança. Outras necessariamente devem ser as
ferramentas para irmos nos aproximando a esse socialismo com liberdade,
do poder popular autêntico, pelo qual entregaram-se  tantos povos
e militantes. Sim, militantes como Zelmar ao qual hoje recordamos com
grande carinho e reconhecimento pela sua qualidade humana e sua entrega
militante exemplar. Um companheiro do “avante os que lutam/arriba los
que luchan”, sempre.

Tradução: Coordenação Anarquista Brasileira

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